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IMPRENSA INQUISITORIAL

11 de novembro de 2010


Por: Jorge André Irion Jobim


Segundo os dicionários, inquisição é o ato de inquirir, indagar, investigar, interrogar judicialmente. O termo está umbilicalmente ligado à Santa Inquisição, também conhecida como Santo Ofício, que foi um tribunal eclesiástico criado com a finalidade oficial de investigar e punir os crimes contra a fé católica. Nela, uma simples acusação equivalia a ser inexoravelmente considerado culpado e condenado por heresia, pois nenhuma pessoa acusada ganhava a causa, provando sua inocência e permanecendo livre. Os inquisidores que tinham a autoridade outorgada pelo papa, bem como os informantes, eram todos muito bem pagos. Já, aqueles que testemunhassem contra uma pessoa considerada herege, recebiam uma parte de suas propriedades e riquezas caso a vítima fosse condenada, o que nos conduz à conclusão de que se tratava de um negócio bastante lucrativo.
O processo de acusação, julgamento e execução era rápido, sem formalidades e sem qualquer direito à defesa. Ao inquisidor cabia o papel de acusar e julgar e, ao réu, a única alternativa era confessar e retratar-se, renunciando sua fé e aceitando o domínio e a autoridade da Igreja Católica, pois os direitos de defesa, de liberdade e de livre escolha não eram respeitados. Os acusados eram submetidos à tortura e obrigados a confessarem sua condição de hereges, sendo posteriormente executados em praça pública sob os olhos de todos os moradores, eis que tal publicidade era uma forma de coagir e intimidar a população. Como consequência da condenação, a vítima podia ser enforcada, decapitada, ou, na maioria das vezes, queimada.
E qual é o segmento de nossa sociedade que age de maneira semelhante hoje em dia? É justamente uma parcela desprezível da imprensa. Parece-me que a exigência do mercado está fazendo com que as nossas instituições de ensino, não formem mais jornalistas preocupados com a responsabilidade pelas informações transmitidas, mas sim, meros caçadores de escândalos, tudo com vistas a vender um produto que se chama notícia. E ela naturalmente, deve vir recheada de sangue e de escândalos, ainda que ao custo da devassa da privacidade, intimidade, imagem e a honra de outras pessoas.
Basta a mais leve insinuação a respeito de um fato desabonatório a respeito de uma pessoa e pronto; esse tipo de imprensa nefasta não tarda em destroçar sua vida e jogar sobre ela pesadas acusações, deixando-lhe marcas que nem mesmo uma futura absolvição em juízo irão apagar. A pessoa ficará destruída diante de sua família, de seu círculo social e da comunidade como um todo.
Não é raro lermos manchetes como “absolvido o assassino de fulano de tal”. Ora, se o réu foi absolvido, ele naturalmente não poderá mais ser considerado o assassino, ao menos daquela vítima sobre a qual a manchete se refere. Afinal, o poder que tem a função de dizer o direito em última instância no caso concreto, é o judiciário e não a imprensa. Chamou-nos a atenção também aquela notória notícia de que um determinado “candidato ficha-suja” foi liberado pela justiça eleitoral para concorrer às eleições que se aproximavam. É evidente que, se ao candidato foi permitido concorrer, ele não pode mais ser chamado de ficha-suja, eis que o órgão competente do poder judiciário deixou de assim considerá-lo.
A única diferença é que na santa inquisição, o objetivo principal era impor ao acusado um sofrimento físico em sua expressão máxima. Já, na imprensa inquisitorial, as acusações e condenações sumárias atingem as pessoas em seus bens imateriais bem mais caros, como a dignidade, o nome, a imagem, a honra e a integridade psíquica. Tudo em um plano da mais perfeita e conveniente assepsia como exigem os novos tempos.
Jorge André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS

 

Perfil do Autor

 

Fui músico durante mais de 30 anos. Há aproximadamente 20 anos, sou advogado da área do Direito de Família e eventualmente na área criminal. Minhas ideia podem ser conhecidas nos blogs: http://jobhim.blogspot.com/ http://cronicasdavilanorte.blogspot.com/

(Artigonal SC #3643890)

 

Fonte do Artigo – http://www.artigonal.com/politica-artigos/imprensa-inquisitorial-3643890.html

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